Como emoções sabotam decisões óbvias.
Vou começar com uma verdade inconveniente:
o tênis é um jogo simples.
Bola vem, bola vai. Passou da rede, vale ponto. Caiu dentro, ótimo. Caiu fora, não vale. Não tem mistério.
O problema começa exatamente no momento em que um ser humano pega a raquete.
Aí surgem emoções, expectativas, traumas de infância, o ego inflado pelo aquecimento, o medo de errar, a raiva do juiz, a implicância com o vento e aquela certeza absoluta de que “hoje era pra eu ganhar fácil”. Pronto. O caos está instaurado.
Tecnicamente, você sabe o que fazer.
Mentalmente, você faz exatamente o contrário.
Você sabe que precisa jogar alto e profundo.
Mas resolve forçar a paralela.
Você sabe que o adversário erra quando troca cinco bolas.
Mas tenta definir na segunda.
Você sabe que está nervoso.
Mas insiste em jogar rápido, como se a pressa fosse sinal de coragem.
Não é coragem.
É ansiedade mal disfarçada.
O tênis não exige genialidade. Ele exige lucidez.
E lucidez é a primeira coisa que as emoções levam embora.
O erro mais comum do tenista amador não é técnico.
É emocional com raquete na mão.
Você não perde porque seu backhand é ruim.
Você perde porque tenta provar algo com ele.
Provar que treinou.
Provar que evoluiu.
Provar que é melhor do que o ranking diz.
Provar que merece ganhar.
E o tênis não está nem aí para o que você precisa provar.
A bola não se sensibiliza com seu esforço.
A quadra não se comove com sua frustração.
O placar não negocia com sua autoestima.
Outro clássico: quando a emoção manda, a lógica sai de quadra para beber água.
Você está ganhando, confortável, errando pouco.
De repente pensa: “Se eu acelerar agora, fecho logo.”
Não fecha.
Você perde três games seguidos e ainda fica indignado, como se tivesse sido traído pelo universo.
Não foi o universo.
Foi você, querendo acabar com o jogo antes de lidar com ele.
O ser humano odeia esperar.
E o tênis é um esporte que recompensa exatamente isso.
Quem tem pressa, sofre.
Quem quer controle absoluto, surta.
Quem precisa de confirmação externa, implode.
E aqui vai outra verdade que ninguém gosta de ouvir:
na maioria das vezes, você sabe exatamente o que deveria fazer.
Só não faz porque emocionalmente não aguenta.
Não aguenta trocar mais uma bola.
Não aguenta jogar feio.
Não aguenta errar mais um pouco antes de acertar.
Não aguenta parecer “menos jogador” por alguns pontos.
A emoção exige alívio imediato.
O tênis exige paciência estratégica.
É por isso que tanta gente joga bem treinando e joga mal competindo.
No treino, ninguém está julgando.
No jogo, todo mundo está — inclusive você mesmo.
E você se julga mal.
Se cobra errado.
E reage pior ainda.
O curioso é que, depois do jogo, tudo fica claro.
A análise é perfeita.
As decisões corretas aparecem como mágica.
“Era só ter mantido a bola em jogo.”
“Era só ter sacado mais no corpo.”
“Era só ter respirado.”
Sim.
Era só.
Mas durante o jogo, quem estava no comando não era você.
Eram suas emoções, vestidas de certeza.
O tênis não é complicado.
Complicado é aceitar que o maior adversário quase nunca está do outro lado da rede.
Ele está aí dentro, acelerado, carente, orgulhoso e impaciente.
Segurando a raquete.
E tomando decisões em seu nome.
Quando você entender isso, vai errar menos.
Não porque ficou melhor tecnicamente.
Mas porque parou de lutar contra o óbvio.
E no tênis, quem respeita o óbvio costuma ganhar mais do que quem tenta ser genial.




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