Ego técnico, apego ao estilo e dificuldade de adaptação
Existe uma tragédia silenciosa nas quadras de tênis amador.
Ela não faz barulho, mas aparece em câmera lenta toda vez que alguém erra uma bola óbvia e, mesmo assim, sai de cabeça erguida.
A tragédia é esta:
o golpe é lindo. O resultado, nem tanto.
Todo tenista amador tem um golpe preferido.
Não o melhor.
O mais bonito.
É aquele que rende elogio no treino, curtida no vídeo e comentário do amigo:
“Nossa, esse teu forehand é de profissional.”
Sim.
De profissional… aposentado.
O problema não é ter estilo.
O problema é confundir estética com eficiência.
O tênis não dá nota artística.
Ninguém perde ponto por feiura.
E, curiosamente, ninguém ganha jogo por elegância.
Mas tenta explicar isso para alguém emocionalmente apegado ao próprio golpe.
O sujeito sabe que a bola está alta, profunda, no backhand.
Sabe que a melhor decisão é jogar alto, cruzado, com margem.
Mas não.
Ele arma aquele swing cinematográfico, de manual, digno de pôster.
A bola vai direto na rede.
E o pensamento vem rápido:
“Errei, mas foi bonito.”
Não foi bonito.
Foi inútil.
O ego técnico é assim: ele prefere perder do que se adaptar.
Prefere errar do seu jeito do que acertar de um jeito que fere sua identidade esportiva.
Porque adaptar-se, para muitos, soa como traição.
Traição ao estilo.
Traição ao treino.
Traição à imagem que a pessoa construiu de si mesma.
O tênis, mais uma vez, não se importa.
Ele não quer saber se você treina há anos aquele golpe.
Não quer saber se ele “normalmente entra”.
Não quer saber se você se sente menos jogador batendo uma bola mais simples.
A quadra cobra solução.
Não justificativa.
E aí entra outro drama clássico:
“Mas esse é o meu jogo.”
Não.
Esse é o jogo que você gosta.
Não necessariamente o que funciona naquele dia, contra aquele adversário, naquela condição.
O jogador maduro adapta.
O jogador vaidoso insiste.
O primeiro ganha alguns jogos feios.
O segundo perde partidas lindas.
E depois ainda sai dizendo que “não jogou mal”.
Jogou, sim.
Jogou mal emocionalmente.
Porque o verdadeiro problema não é técnico.
É psicológico.
É a incapacidade de abrir mão do ego por alguns pontos.
É a resistência em aceitar que, às vezes, ganhar exige humildade.
E humildade, para muitos, dói mais do que errar.
Tem gente que prefere perder jogando “seu melhor tênis” do que ganhar jogando o necessário.
Porque ganhar assim não alimenta o personagem que ela criou.
Só que o placar não conversa com personagens.
Ele conversa com eficiência.
No fim das contas, o tênis sempre coloca a mesma pergunta na sua frente:
você quer jogar bonito ou quer jogar melhor?
Às vezes, dá para fazer os dois.
Muitas vezes, não.
E enquanto você insistir no golpe que ama — mesmo quando ele te trai — o adversário agradece.
Sem julgamento.
Sem crítica.
Ele só pega o ponto.
—
Toni Verdrani
(que já perdeu muito jogo tentando ser estiloso demais)

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