A recente partida entre a bielo-russa Aryna Sabalenka (nº 1 do mundo na WTA) e o australiano Nick Kyrgios, realizada em 28 de dezembro de 2025, em Dubai, foi comercializada como uma “Batalha dos Sexos” da era moderna, em referência à partida realizada em 1973, entre a Billie Jean King e Bobby Riggs. Sobre esta partida e o que a envolvia, já escrevi um artigo para quem desejar ler ou reler: https://news.ligadetenis.com.br/1685-2. O evento realizado em Dubai esteve mais próximo de um espetáculo de entretenimento do que de um confronto esportivo legítimo, deixando um gosto amargo para os puristas do tênis.

Para tentar equilibrar o jogo, a organização reduziu a quadra de Sabalenka em 9% e impôs a regra de saque único (sem segundo serviço) para ambos. Embora a quadra menor devesse ajudar a bielorrussa, a regra do saque único acabou por beneficiar desproporcionalmente Kyrgios. Mesmo vindo de um longo período de inatividade e ocupando a posição 671º no ranking ATP (devido a muitas lesões), a potência natural do serviço masculino — especialmente o de um grande sacador como Kyrgios — é uma vantagem difícil de amenizar. Para Sabalenka, perder o segundo saque significou jogar sob uma pressão constante que não permitiu o desenvolvimento do seu jogo agressivo habitual.

O placar de duplo 6×3 para o australiano não conta a história toda. Durante o jogo, Sabalenka chegou a dançar a “Macarena” em um intervalo, e o locutor do evento interagia com o público de formas que lembravam mais um jogo dos Harlem Globetrotters do que uma partida oficial. Ao contrário da histórica Batalha dos Sexos de 1973 entre Billie Jean King e Bobby Riggs — que carregava um peso político e social imenso sobre o valor do esporte feminino —, o duelo de 2025 foi puramente comercial. Organizado pela agência que representa ambos os atletas (Evolve), o evento pareceu uma estratégia de marketing para manter os nomes dos jogadores em evidência antes do Australian Open de 2026.
A recepção entre as colegas de Sabalenka foi fria. Iga Swiatek, atual número 2 do mundo, questionou abertamente a necessidade desse tipo de exibição, afirmando que o tênis feminino “se sustenta por si só” e não precisa ser validado em confrontos contra homens. Há um risco real de que eventos assim reforcem preconceitos antigos. Quando Sabalenka (no auge da forma) perde para um Kyrgios visivelmente fora de ritmo e sem mobilidade ideal, o público casual pode tirar conclusões erradas sobre a qualidade do circuito WTA, ignorando as diferenças biológicas óbvias que o tênis profissional de elite já reconhece e separa.
Nick Kyrgios cumpriu o seu papel de showman, mas a sua escolha como oponente foi controversa devido ao seu histórico pessoal, acusação de agressão a ex-namorada e comentários passados. Embora ele tenha sido respeitoso em quadra, a sua participação reforçou o caráter “cirquense” do evento. Sabalenka é a numero 1 da WTA , multicampeã, carismática, tem a torcida de muitos brasileiros e brasileiras, e de muitas nacionalidades mundo afora. Talvez, não precisasse disso, mas, ela jogou e defendeu sua participação no evento. Obviamente, as críticas vieram.
A partida foi um sucesso de público em Dubai e gerou engajamento nas redes sociais, o que, do ponto de vista financeiro, justifica a sua existência. Sabalenka já demonstrou interesse em uma revanche com regras diferentes (como ter direito a dois saques), mas fica a dúvida: o tênis realmente ganha com essas exibições, ou elas apenas servem para alimentar debates vazios em vez de valorizar as conquistas reais das mulheres no tênis?




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