Tênis não é UFC: ganhar no grito não vale

Por Toni Verdrane.

Já vi muita coisa nesses quase 50 anos de tênis. Vi madeira virar grafite, saque e voleio virar relíquia, ranking subir à cabeça e descer para o joelho. Joguei, perdi, ganhei, ensinei, desaprendi e ensinei de novo. Me aposentei das competições, mas nunca do esporte. Hoje, como treinador aposentado, sigo observando a quadra com o mesmo olhar curioso — e um pouco mais impaciente — de quem já errou o suficiente para reconhecer o erro à distância.

Essa coluna nasce (ou renasce) para falar do que ninguém gosta de ouvir, mas todo mundo precisa. Verdades do tênis. Verdades sem filtro. Não para constranger, mas para libertar. Porque evoluir dói menos do que insistir no erro achando que é “estilo”.

E vamos começar por uma confusão comum: tênis não é UFC. Aqui, ganhar no grito não vale ponto.

Existe uma crença estranha de que vibrar demais ajuda, que gritar “vamos!” a cada erro do adversário intimida, que reclamar com o próprio box, com o juiz imaginário ou com o vento melhora a tomada de decisão. Não melhora. Piora. Sempre.

Controle emocional não é frescura. É habilidade técnica invisível. Quem não controla a emoção começa a decidir mal. E no tênis, decisão errada custa caro. Custa ponto, custa set, custa jogo.

O problema não é vibrar. Vibração é energia. O problema é o excesso. O grito que vira desabafo. O desabafo que vira distração. A distração que vira bola na rede. E aí o ciclo se repete, cada vez mais barulhento e cada vez menos eficiente.

Já reparou como os chiliques quase sempre aparecem depois de escolhas ruins? O jogador acelera quando não devia, força quando o ponto pedia construção, tenta resolver tudo em uma bola. Erra. Grita. Vibra contra si mesmo. E segue errando.

Não é azar. É falta de controle.

Quando a emoção passa do ponto, o corpo enrijece, o braço encurta e a visão de jogo fica míope. A quadra parece menor, a rede parece mais alta e o adversário, curiosamente, começa a jogar “muito”. Spoiler: ele não está jogando melhor. Você que parou de pensar.

Tênis é um esporte de longa conversa interna. Quem fala alto demais por fora geralmente está ouvindo pouco por dentro. E o diálogo interno é onde o jogo se ganha. É ali que você decide se vai ser paciente, se vai respeitar o momento, se vai aceitar trocar mais uma bola antes de tentar o herói do ponto.

O tênis não premia o mais exaltado. Premia o mais lúcido.

Vejo muito jogador confundir intensidade com descontrole. Intensidade é estar presente, atento, comprometido com cada ponto. Descontrole é achar que emoção substitui clareza. Não substitui. Emoção sem direção é só barulho.

E não, isso não tem nada a ver com “jogar frio”. Pelo contrário. Jogar bem exige emoção organizada. Exige saber quando subir a energia e quando baixar. Exige entender que nem todo ponto merece comemoração e que alguns erros pedem silêncio, não espetáculo.

Quem aprende a controlar a emoção começa a errar melhor. E errar melhor é o primeiro passo para errar menos.

Essa coluna vai falar disso. Vai falar do que atrapalha mais do que ajuda. Do ego travestido de confiança. Do talento sem disciplina. Do treino que engana. Do jogo que revela. Vai incomodar um pouco — prometo. Mas também vai clarear.

Porque o tênis, no fundo, é simples. A gente é que insiste em complicar.

E se você acha que gritar resolve… talvez esteja jogando o esporte errado. Aqui, não tem nocaute. Tem decisão. E decisão boa se toma em silêncio.

Nos vemos na próxima semana. E sim, pode vibrar. Só não deixe o grito jogar por você.

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